terça-feira, 17 de janeiro de 2012

break the fuck out.

"Quando o filme 127 Horas estreou no cinema, resisti à tentação de
assisti-lo. Achei que a cena da amputação do braço, filmada com extremo
realismo, não faria bem para meu estômago. Mas agora que saiu em DVD, corri
para a locadora. Em casa eu estaria livre de dar vexame.

Quando a famosa cena se iniciasse, bastaria dar um passeio até a cozinha,

tomar um copo d´água, conferir as mensagens no celular, e então voltar para
a frente da TV quando a desgraceira estivesse consumada. Foi o que fiz.

O corte, o tão famigerado corte, no entanto, faz parte da solução, não do
problema. São cinco minutos de racionalidade, bravura e dor extremas, mas é
também um ato de libertação, a verdadeira parte feliz do filme, ainda que
tenhamos dificuldade de aceitar que a felicidade pode ser dolorosa. É muito
improvável que o que aconteceu com o Aron Ralston da vida real
(interpretado no filme por James Franco) aconteça conosco também, e daquele
jeito.

Mas, metaforicamente, alguns homens e mulheres conhecem a experiência de
ficar com um pedaço de si aprisionado, imóvel, apodrecendo, impedindo a
continuidade da vida. Muitos tiveram a sua grande rocha para mover e, não
conseguindo movê-la, foram obrigados a uma amputação dramática, porém
necessária.

Sim, estamos falando de amores paralisantes, mas também de profissões que
não deram retorno, de laços familiares que tivemos de romper, de raízes que
resolvemos abandonar, cidades que deixamos. De tudo que é nosso, mas que
teve que deixar de ser, na marra, em troca da nossa sobrevivência
emocional. E física, também, já que insatisfação é algo que debilita."

Nenhum comentário:

Postar um comentário